母の日 — Haha no Hi
O Dia das Mães no Japão — e por todo o Oriente que aprendeu a celebrá-las.
Em todo o mundo, existe uma palavra que a maioria das crianças aprende antes de qualquer outra: mãe. Em japonês, é お母さん — Okāsan. E esse nome carrega um universo inteiro.
Se você está ouvindo a Rádio J-Hero, a gente sabe que você tem um carinho especial pela cultura japonesa. Então, nada mais justo do que dedicar uma matéria completa a um dos dias mais afetivos do calendário do Japão — o Haha no Hi (母の日), o Dia das Mães.
Mas a história não começa no Japão. Assim como tantos outros fenômenos culturais do século XX, este dia fez uma viagem — do Ocidente para o Oriente — e ao longo do caminho foi ganhando novos significados, novas flores e novos rostos. Vamos contar tudo isso aqui.
1. A origem: uma americana, muito amor e um cravo branco
Antes de falar do Japão, precisamos fazer uma passagem rápida pelos Estados Unidos — porque é de lá que essa história começa.
Anna Jarvis era filha de Ann Reeves Jarvis, uma ativista que no século XIX criou os chamados Mothers’ Work Clubs, grupos de mães que se reuniam para melhorar a saúde das famílias durante a Guerra Civil Americana. Quando sua mãe morreu, em 1905, Anna fez uma promessa: criar um dia oficial para honrá-la.
Em 1908, ela organizou o primeiro Dia das Mães oficial em Grafton, Virgínia Ocidental. Em 1914, o presidente Woodrow Wilson assinou o decreto que tornou o segundo domingo de maio o Mother’s Day nos EUA. O símbolo escolhido por Anna foi o cravo branco — a flor favorita de sua mãe.
📌 A ironia da história: Anna Jarvis passou os últimos anos de sua vida lutando contra a comercialização do Dia das Mães. Ela chegou a ser presa em um protesto contra a venda de flores em 1948 — a mesma data que ela mesma criou havia virado uma máquina de dinheiro. Uma história digna de ser contada no ar.
A propagação pelo mundo
Da América, a celebração se espalhou para a Europa e depois para a Ásia. Cada país absorveu o conceito de maneiras diferentes — alguns mantiveram a data, outros mudaram, e muitos deram um sabor completamente local.
No Reino Unido, o Mothering Sunday já existia desde o século XVI — era o dia em que serventes podiam voltar para casa visitar a mãe. Hoje convive com a versão moderna americana.
Na Tailândia, o Dia das Mães é comemorado no 12 de agosto — aniversário da Rainha Sirikit, que é considerada a mãe da nação. A flor do dia é o jasmim, simbolizando pureza e amor materno.
Na Coreia do Sul, não existe exatamente um Dia das Mães — existe o Eobeoinal (어버이날), o Dia dos Pais, comemorado em 8 de maio, que homenageia tanto pai quanto mãe. A flor típica é o cravo vermelho. É tradição os filhos prenderem o cravo no peito dos pais — um gesto simples e muito bonito.
Na China, a data foi oficializada apenas em tempos recentes — e está fortemente ligada à figura mítica de Mèng Mǔ (孟母), a mãe de Mèngzǐ (孟子) — Mencius —, o filósofo confucionista. Conta a lenda que ela mudou de casa três vezes para garantir que o filho crescesse em um ambiente saudável. A expressão Mèng Mǔ Sān Qiān (孟母三遷) — “as três mudanças da mãe de Mencius” — até hoje representa o sacrifício materno.
2. O Japão e o Haha no Hi — uma história de adaptação e sentimento
Agora sim — vamos ao coração do que interessa pra gente aqui na J-Hero.
O Haha no Hi (母の日) chegou ao Japão nas primeiras décadas do século XX, trazido por influências ocidentais. Mas foi depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente nos anos 1950 durante a reconstrução do país, que a data ganhou força real. O Japão adotou o modelo americano: segundo domingo de maio, mesmo símbolo — o cravo vermelho (カーネーション kānēshon).
O cravo vermelho para a mãe viva, branco para a mãe falecida — esse costume, embora hoje menos praticado, ainda ecoa em partes do Japão rural e nas gerações mais velhas.
O que o Japão fez foi, como de costume, absorver o conceito e refiná-lo. Com o tempo, o cravo vermelho se tornou a flor do dia — e o Japão é hoje um dos maiores mercados de cravos do mundo justamente no mês de maio. Floriculturas por todo o país ficam lotadas nas semanas que antecedem o dia.
O que os japoneses fazem no Haha no Hi
Ao contrário do Brasil, onde o Dia das Mães é uma data de almoço em família, restaurantes cheios e presentes comprados na última hora, o Japão tem um tom um pouco mais contido — mas não menos afetivo. A cultura japonesa valoriza o amae (甘え) — uma espécie de dependência afetiva e acolhimento entre as pessoas — e também o enryo (遠慮), a discrição emocional. Ou seja: o amor existe em plenitude, mas pode não ser gritado.
Presentes típicos
O presente mais clássico são, literalmente, as flores — cravos ou buquês variados. Mas doces finos (お菓子 okashi), roupas, bolsas, e cada vez mais os chamados taiken gifuto (体験ギフト) — presentes de experiência — como um dia de spa, um passeio ou um jantar especial.
Cartões escritos à mão
Diferente do contexto digital atual, ainda há uma valorização dos tegami (手紙) — cartas escritas à mão. Ver uma carta manuscrita no Japão ainda carrega um peso emocional imenso.
Crianças nas escolas
É muito comum que escolas primárias organizem atividades onde as crianças fazem desenhos ou cartas para as mães. Algumas escolas preparam peças de teatro ou cantam músicas no dia. Uma das mais tradicionais é a canção Okāsan (お母さん) — cantada por crianças há décadas.
O papel da mãe na sociedade japonesa
Falar do Dia das Mães no Japão sem falar do papel social da mãe japonesa seria deixar metade da história de fora.
Existe no Japão um conceito que define muito bem essa figura: a kyōiku mama (教育ママ) — a “mamãe da educação”. É a mãe que dedica a vida ao sucesso escolar e profissional dos filhos. Acorda cedo, prepara a lancheira perfeita (o famoso obentō; お弁当), acompanha tarefas, leva e busca da escola — muitas vezes enquanto o pai mal aparece em casa por conta das longas horas de trabalho.
Essa figura é ao mesmo tempo admirada e debatida na sociedade japonesa contemporânea. Com o crescimento do movimento feminista no país e a queda nas taxas de casamento e natalidade, o modelo da mãe dedicada em tempo integral está sendo questionado — mas sua presença cultural ainda é enorme.
Curiosidade J-Hero: o filme de anime Wolf Children (おおかみこどもの雨と雪 Ōkami Kodomo no Ame to Yuki) de Hosoda Mamoru é considerada por muitos fãs como o retrato mais emocionante da maternidade no anime moderno. Um tributo genuíno a todas as mães — humanas ou não.
Haha e okāsan — que palavra usar?
Um detalhe que poucos sabem: no japonês, existem várias formas de falar mãe — e elas revelam muito sobre contexto e relação.
お母さん (okāsan) — a forma mais comum e afetiva. Usada quando se fala com a mãe diretamente ou ao referenciá-la em contexto familiar.
母 (haha) — a forma usada quando se fala sobre a própria mãe para outras pessoas. É mais formal e humilde — um reflexo do kenjōgo, o japonês humilde.
ママ (mama) — forma carinhosa e informal, mais usada por crianças pequenas e na linguagem cotidiana moderna.
母親 (hahaoya) — forma mais neutra e técnica, usada em documentos ou contextos formais.
Por isso o dia se chama Haha no Hi e não Okāsan no Hi — é o dia da minha mãe para o mundo, a mãe reverenciada publicamente.
3. A mãe na literatura, no anime e na cultura pop japonesa
A figura materna no Japão não vive só no calendário — ela percorre toda a cultura pop do país de formas às vezes sutis, às vezes devastadoras.
No anime e no mangá
Quem assiste anime com certa frequência provavelmente já notou algo curioso: mães costumam morrer cedo. Não é acidente — é um recurso narrativo recorrente que serve para ativar o arco de amadurecimento do protagonista e para gerar empatia instantânea no público. Mas existem exceções marcantes e muito amadas.
Trisha Elric de Fullmetal Alchemist — morreu cedo, mas é o pilar emocional de toda a série. É por ela que os irmãos Elric colocam o mundo em risco.
Uzumaki Kushina de Naruto — apareceu pouco, mas sua cena de despedida é um dos momentos mais chorosos de toda a franquia. Não tem quem assista sem precisar de um lenço.
Midoriya Inko de Boku no Hero Academia — uma das mães mais presentes e humanizadas do anime moderno. Simples, medrosa, mas completamente dedicada ao filho.
Hana de Wolf Children — o retrato mais realista e emocionante. Criou dois filhos meio-lobos sozinha, no campo. Sem superpoderes, sem magia — só amor e força.
Na Literatura
Na literatura clássica japonesa, a mãe aparece com frequência como figura de sacrifício silencioso. Em Botchan, de Natsume Sōseki, o protagonista faz uma menção melancólica à mãe que nunca o amou muito — e ao pai ausente. A mãe que não é perfeita também aparece na literatura japonesa, com uma honestidade rara.
Já em Norwegian Wood, de Murakami Haruki, as figuras femininas — incluindo as maternas — são marcadas pela ausência, pela perda e pela memória afetiva que não se apaga.
E em Kitchen, de Yoshimoto Banana, temos algo muito particular: uma figura transgênera que ocupa o papel de mãe — quebrando, em 1988, um tabu enorme na literatura japonesa.
4. A mãe no Japão contemporâneo — tensões e transformações
Falar do Haha no Hi em 2025 sem tocar nas tensões contemporâneas seria desonesto jornalisticamente.
Shōshika — a crise da natalidade
O Japão enfrenta uma das crises demográficas mais severas do mundo. Em 2023, o país registrou menos de 760 mil nascimentos — o menor número desde o início dos registros. A expressão shōshika (少子化) — diminuição das crianças — é uma das palavras mais debatidas na mídia japonesa hoje.
Isso afeta diretamente a percepção da maternidade: muitas mulheres jovens no Japão escolhem não ter filhos — seja por pressão profissional, seja pela falta de suporte do Estado ou dos parceiros. A taxa de divórcio cresce, o casamento tardio também — e o papel da mãe está sendo redefinido em tempo real.
Wan-ope ikuji — criação solo
Esse termo viralizou no Japão nos últimos anos: wan-ope ikuji (ワンオペ育児) — criar filhos sozinha, enquanto o marido trabalha 12, 14 horas por dia. Wan-ope vem de one operation — operar sozinho. Mães que são ao mesmo tempo chefe de família emocional, professora, cuidadora e, muitas vezes, também trabalhadoras fora de casa.
O movimento e a mudança
Ao mesmo tempo, cresce no Japão o movimento por ikuji kyūgyō (育児休業) — licença-paternidade real, não só no papel. Empresas são pressionadas a permitir que pais participem mais da criação dos filhos. O Haha no Hi, neste contexto, começa a ganhar um subtexto político também.
O Dia das Mães no Japão de hoje não é só sobre cravos e cartas — é sobre um país inteiro tentando entender o que significa ser mãe no século XXI.
5. Fechamento — para todas as okāsan do mundo
O Haha no Hi é muito mais do que um dia marcado no calendário. É um espelho da sociedade japonesa — da sua delicadeza, dos seus conflitos, da sua capacidade de absorver influências externas e transformá-las em algo genuinamente seu.
De Anna Jarvis nos Estados Unidos ao cravo vermelho nas mãos de uma criança em Ōsaka. Da Mèng Mǔ filosofando sobre educação na China antiga à mãe que hoje roda wan-ope em um apartamento de Tóquio enquanto a filha estuda para o vestibular (受験 juken). De Okinawa e seus centenários ao Vietnã com suas rosas brancas.
A história da maternidade no Oriente é vasta, complexa, bela e, às vezes, dolorida. E é exatamente por isso que ela merece ser contada com cuidado — e com admiração.
お母さん、ありがとう。 Okāsan, arigatō. Obrigado, mãe.