
Erased: uma história que o tempo não apagou
Entre mistérios, segundas chances e detalhes escondidos, revisitamos um anime que continua deixando sua marca mesmo anos depois.
Um achado que o tempo não apagou
Hoje venho vos falar sobre um dos meus achados de 2019, que carrego com carinho em um pedaço especial do meu coração. Lembro-me da primeira vez que assisti: era uma tarde de viagem em minha cidade natal, na casa da minha avó. Este é o tipo de anime que você começa sem nenhuma expectativa, mas que fica cada vez melhor e, provavelmente, vai te marcar por muitos anos. É assim que conheci Boku dake ga Inai Machi — A Cidade Onde Só Eu Não Existo. Ou, talvez, um pouco mais para os íntimos, Erased.
Uma segunda chance no passado
A história tem como protagonista Fujinuma Satoru, um simples rapaz de 29 anos que trabalha meio período como entregador de pizza para pagar as contas enquanto tenta, sem muito sucesso, se tornar um mangaká. Satoru possui um poder involuntário que lhe permite voltar no tempo entre um e cinco minutos para prevenir mortes e acidentes. Após uma catástrofe acontecer com sua mãe, seu “poder”, chamado por ele de Revival, o envia 18 anos para o passado, transportando sua consciência de 29 anos para seu corpo de criança, que tinha apenas 11 anos de idade. Com isso, ele usa essa nova chance para descobrir quem é o serial killer que sequestra e assassina suas colegas de classe, além de tentar salvar sua mãe no futuro.
Dos traços de Sanbe Kei às telas
Erased é uma obra criada pelo mangaká japonês Sanbe Kei, que escreveu e ilustrou o mangá original, publicado entre 2012 e 2016 na revista Young Ace, da editora Kadokawa Shoten. A obra foi concluída em oito volumes na edição original. Em janeiro de 2016, ganhou sua adaptação para anime, produzida pelo estúdio A-1 Pictures. A direção ficou nas mãos de Itō Tomohiko, enquanto o roteiro foi desenvolvido por Kishimoto Taku. A série contou com 12 episódios, exibidos originalmente entre janeiro e março daquele ano. Outro destaque fica por conta da trilha sonora, composta por Kajiura Yuki, que ajuda a construir a atmosfera de suspense e emoção que acompanha a narrativa.
Entre a abertura e o encerramento
A parte musical também merece um espaço por aqui. A abertura fica por conta de Re:Re:, da banda ASIAN KUNG-FU GENERATION, uma música mais agitada que combina bastante com o clima de mistério e com a correria que Satoru enfrenta ao longo da história. Já a ending segue por um caminho completamente diferente. Sore wa Chiisana Hikari no Yō Na, interpretada por Sayuri, traz uma melodia mais calma e melancólica. E acho interessante como as duas músicas conseguem representar tão bem lados diferentes de Erased: de um lado, toda a tensão e urgência da história; do outro, a sensibilidade e a esperança que existem por trás dela.
Pequenos detalhes que talvez tenham passado despercebidos
Erased é um anime cheio de detalhes que podemos não perceber de imediato, incluindo alguns que não posso mencionar por conterem spoilers. São tantos que daria até para fazer uma matéria inteira apenas contando tudo. Em uma entrevista, o próprio autor, Sanbe Kei, comentou sobre alguns desses detalhes e como eles foram pensados para que o público pudesse descobrir coisas novas ao assistir novamente. Pensando nisso, separei algumas das curiosidades que a obra nos proporciona.
♡ A abertura contém diversos spoilers e algumas pistas bastante sutis sobre a identidade do assassino. São detalhes tão rápidos que provavelmente passam despercebidos na primeira vez, mas que ganham outro significado quando reassistimos à obra. Particularmente, consegui identificar três cenas.
♡ No episódio 11, após um acontecimento com Satoru, a abertura retira o protagonista de cena. Os momentos em que ele aparecia ficam vazios ou mostram apenas os cenários, refletindo o significado do título “A Cidade Onde Apenas Eu Não Existo”. Ainda nessa abertura, os personagens que apareciam com os rostos riscados são mostrados de forma clara, sem qualquer marca sobre seus rostos.
♡ Inspirado no conto O Fio da Aranha, de Akutagawa Ryūnosuke, o anime utiliza fios e elementos vermelhos como pistas visuais. Quando o assassino está prestes a agir ou o perigo se aproxima, esses detalhes aparecem discretamente nas cenas. Mais adiante, descobrimos que o próprio vilão enxerga fios de aranha imaginários sobre as pessoas que escolhe como vítimas.
♡ Outro detalhe interessante está na iluminação. Em algumas cenas em que o assassino demonstra uma falsa bondade ou tenta controlar as crianças, linhas de luz aparecem ao fundo, lembrando fios de aranha. É uma forma sutil de representar como ele manipula as pessoas ao seu redor.
O que o anime deixou pelo caminho
Uma coisa que me incomodou um pouco na adaptação foi a forma como a história do vilão foi apresentada. No mangá, temos mais espaço para conhecer seu passado, entender melhor suas motivações e acompanhar detalhes que acabaram ficando de fora do anime. Algumas situações também foram bastante resumidas, fazendo com que certos acontecimentos parecessem acontecer rápido demais. Por isso, apesar de Erased ser uma ótima experiência em formato de anime, recomendo muito a leitura do mangá, principalmente para quem terminou a série com a sensação de que algumas partes mereciam mais atenção.
Mas fica um aviso: a história do vilão aborda temas bastante pesados e sensíveis, então, se você costuma ser afetado por esse tipo de conteúdo, vale ter cuidado durante a leitura, pois algumas passagens podem ser gatilhos emocionais.
O fim de uma história, não de uma lembrança
No fim das contas, Erased é uma daquelas histórias que vão muito além de mistérios e viagens no tempo. Embora esta matéria já esteja grande, ainda tenho muito o que falar sobre a obra, mas vamos ficar por aqui para não prolongar ainda mais. Se você ainda não assistiu, espero ter despertado sua curiosidade. E, se já conhece a história, talvez seja um bom momento para revisitá-la. Afinal, algumas obras merecem ser lembradas, mesmo com o passar do tempo.






