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Recettear – um conto de capitalismo

:: 6 minutos de leitura

Um RPG de fantasia e a emocionante tarefa de cuidar de uma loja.

“Você parece ter um conhecimento básico de como vender coisas para as pessoas, e não enfurecê-las a ponto delas queimarem a sua loja num ataque de fúria.” Esta é uma das frases que dá início à sua aventura em Recettear: An Item Shop’s Tale.

Um jogo que tinha tudo para ser apenas um RPG que apresenta “mais do mesmo” tem uma reviravolta sensacional: em Recettear, sua função é abrir e gerenciar uma loja de RPG, portanto você deve gerenciar seus estoques e garantir que seus clientes sejam bem atendidos. Toda a sorte de cidadãos, magos e aventureiros vão à sua loja à procura de alimentos, armas e poções, além de vender os itens mais aleatórios quanto for possível.

Desconstruindo um tema

Desconstruções de temas são bem comuns em obras japonesas. São animes, jogos ou qualquer peça de produção cultural que se propõem a trabalhar uma temática específica, só que dando foco em tudo que essas obras normalmente ignoram em seus universos.

Quão comum é para vocês, num jogo de aventura ou num RPG, sair numa longa jornada em busca de glória? Logo no início de Recettear você descobre que o pai da protagonista fez exatamente isso, abandonando sua casa, emprego e filha para se tornar um grande aventureiro. Infelizmente ele acaba desaparecendo algumas semanas depois e deixa para trás uma dívida enorme referente ao financiamento do seu equipamento de explorador.

Você assume o papel de Recette e deve trabalhar para quitar o débito de seu pai, antes que sua casa seja tomada pelos credores e você seja destinada a viver pelo resto dos seus dias numa caixa de papelão (sim, isso realmente pode acontecer no jogo).

Diferente da maioria dos J-RPGs, o seu papel não é o de explorador. Você é apenas uma das pessoas que trabalham em uma das muitas cidades por onde esses aventureiros passam. O seu papel é de comprar seus itens e de oferecer novos equipamentos, pois você tem contas a pagar ao final de cada semana.

Como “ganhar” neste jogo, então?

Primeiramente, você pode, sim, matar uns chefões usando umas espadas no jogo, mas não com a Recette. Um dos modos do jogo é explorar calabouços e cavernas para coletar produtos raros para a loja, embora sua protagonista seja fisicamente incapaz de sobreviver a esses desafios. Por isso você tem a opção de contratar alguns exploradores que enfrentarão os perigos por você.

Ainda assim, não adianta muita coisa você obter itens raros e valiosos com seus aventureiros se você não comercializá-los, então boa parte do jogo vai acontecer dentro da sua loja, barganhando e organizando os estoques. Não vou mentir para vocês, o jogo possui excelentes diálogos, então jogadores ávidos por pular as conversas podem perder algumas das melhores pérolas do jogo.

Você também deve ficar atento às conversas por um motivo interessante para o seu gameplay: alguns NPCs antecipam que alguns produtos vão valorizar ou desvalorizar e como você deve organizar seus preços e seus estoques para as diferentes situações.

Todas essas mecânicas são apresentadas num tutorial rígido, porém didático, apresentado pela fada Tear (que é responsável por garantir seus pagamentos em dia). O nome do jogo – e da loja que você conduz – vem da junção do nome da protagonista com o dessa fada/instrutora/agiota (Recette + Tear). Caso você goste de mecânicas de visual novel, é possível (e totalmente opcional) acompanhar o desenvolvimento aprofundado de grande parte dos personagens do jogo.

O jogo tem tanto material facultativo que, ao quitar a dívida de seu pai, o principal objetivo do jogo, você pode continuar mantendo sua loja e explorando novas localidades com seus aventureiros.

E então, o que faz Recettear ser relevante?

Recettear foi lançado no Japão em 2007 pelo estúdio independente EasyGameStation, sediado no Japão. Somente em 2010 o jogo saiu do Japão e alcançou mercados ocidentais, onde alcançou grande relevância muito rapidamente. Estima-se um total superior a 500.000 cópias vendidas na Steam, o que é um número surpreendente dadas as condições de desenvolvimento.

O título ainda é considerado um dos melhores jogos de gerenciamento de loja, embora não seja imune a críticas. A arte durante os diálogos é bem consistente, com um estilo de anime muito puxado para o chibi. Tanto Tear quanto Recette são extremamente moe e Kawaii A arte em pixel dos personagens é bem ajustada e funcional.

O que peca é justamente quando eles se arriscam no 3D. A modelagem é simplista, e as texturas destoam demais dos personagens para ser plenamente confortável aos olhos. A pior parte é que seus inimigos também são modelados em 3D, logo não é possível sequer dizer que as escolhas da arte são consistentes, já que alguns dos personagens são em pixel art e outros são poligonais.

O combate nos moldes top-down, em que a câmera pega seus personagens por um ângulo de cima, tende a ser monótono com o tempo, principalmente quando você pega o padrão dos inimigos (o que não demora muito) e, para agravar, cada aventureiro tem poucos padrões de golpes. Sem contar os chefes, o jogo conta com 14 tipos de inimigos que aparecem repetidamente com paletas de cores ligeiramente diferentes.

Considerando que, para serem lucrativas, as explorações de calabouços devem ser feitas de forma longa e bem pensada, o fato de o combate não ser plenamente polido acaba sendo um ponto negativo grave para o jogo.

Veredito

Prós

  • Senso de humor afiado, além de todo o conjunto de referências colocadas pela equipe de localização;
  • É uma desconstrução do gênero de fantasia bem inusitado;
  • A arte apela bastante para o kawaii e usa paletas bem confortáveis;
  • É possível personalizar sua loja e assim determinar o tipo de clientes que vão se interessar pelos seus produtos;
  • Os personagens são bem desenvolvidos e as narrativas deles podem ser bem divertidas de acompanhar.

Contras

  • O combate vai se tornar repetitivo, uma vez que as opções não são as mais variadas;
  • O 3D do jogo não é tão bem construído como a arte em pixel;
  • A princípio, negociar com os diferentes clientes pode ser frustrante até que você entenda o comportamento e as expressões dos clientes;
  • O tutorial chega a ser monótono em alguns momentos.

Conclusão

O jogo pode acabar por exigir demais de quem joga logo no seu início. A primeira hora do jogo é a mais difícil, e, considerando que o início do jogo vai ser determinante para o seu sucesso no decorrer da história, muitos jogadores podem precisar iniciar o jogo uma segunda ou terceira vez. Ainda assim, o jogo é sensacional e apresenta uma pegada bem diferente do que costumamos consumir em termos de J-RPG.

Recettear: An Item Shop’s Tale é um jogo que vale a pena ser jogado. Sua lista de pequenos defeitos não deve estragar a experiência divertida que o jogo proporciona.

Notas

  • Gameplay: 7,0
  • Visual: 6,5
  • Continuidade: 8,5
  • Nota final: 7,5

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