Chegou o momento de nos despedirmos de um dos títulos de anime mais aclamados da última década junto ao público internacional: a épica história de Shingeki no Kyojin (Attack on Titan), que chega ao clímax com os novos episódios de sua última temporada. Vamos relembrar um pouco dessa trajetória e fazer algumas especulações?

O início

Shingeki no Kyojin tem sua origem no mangá homônimo escrito e ilustrado por Hajime Isayama, que foi serializado na revista Bessatsu Shōnen Magazine entre setembro de 2009 e abril de 2021. A editora Kōdansha compilou a obra em um total de 34 volumes e vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo. Em novembro passado, a Kōdansha reconheceu Isayama com o terceiro Noma Publishing Culture Awards, uma premiação que reconhece indivíduos e/ou grupos de pessoas que fizeram contribuições excelentes para a cultura japonesa, tendo um impacto decisivo sobre a indústria editorial.

Muito do apelo de Shingeki no Kyojin consiste no seu próprio enredo: um conflito identificável e subtramas que enriquecem a ação principal, um mundo de fantasia com regras precisas e coesão sólida, tendo força e impacto dramático:

Os remanescentes da humanidade, após estarem à beira da extinção, vivem em uma cidade murada que bloqueia a entrada dos Titãs: humanoides comedores de humanos que surgiram do nada. A paz reina há cem anos, mas, numa manhã, um trovão sacode o céu e a terra; então, um Titã mais alto do que qualquer outro já visto emerge acima dos muros. Essa ameaça lembra a humanidade, que vive com medo, de que aquelas muralhas eram na verdade jaulas.

“Queria criar algo curto, simples e interessante quando alguém visse”, disse Hajime Isayama em Attack on Titan Guidebook: Inside & Outside. Refletindo em como era difícil fazer as pessoas lerem seu longo primeiro capítulo, ele se concentrou em um evento que chamaria a atenção desde as primeiras páginas e assim nasceu a imagem icônica do Titã Colossal — que vocês podem conferir a seguir, na versão do anime.

Alguns questionamentos começam a surgir após esse primeiro capítulo: O que são os Titãs e de onde eles vieram? Como se defender dessa ameaça? Foram pautas que valorizaram os mistérios subjacentes para dar continuidade, sendo resolvidos aos poucos, trazendo novas perguntas à medida que estas iam sendo respondidas. Tudo isso até a virada que revolucionou a trama, focando em uma guerra de longa data entre duas nações e o impacto da mesma no caráter dos personagens, bem como nas suas motivações.

A História de Isayama

Em 2006, com apenas 20 anos, Isayama foi para Tóquio com o sonho de se tornar mangaká, embora ele achasse que seu trabalho não tinha a qualidade necessária para os padrões do meio — uma autocrítica apoiada por múltiplas editoras durante algum tempo. Confira um trecho da entrevista que o autor concedeu à BBC:

Visitei muitas empresas. Eles gostaram da minha história, mas disseram que a qualidade do desenho era ruim. Eu ia desistir porque há muitas pessoas que querem se tornar artistas de mangá. Não pensei que pudesse me tornar um dos grandes.

As temáticas de sua obra têm laços estreitos com sua própria biografia. Em entrevista à NHK, em 5 de maio de 2018, o autor revelou que na infância guardava sentimentos de inferioridade em relação ao seu entorno, tanto físico, por causa das montanhas que cercavam Hita — a cidade onde cresceu — e que o faziam se perguntar o que havia além deles, como social, já que muitas vezes perdia habilidades ou deixava de demonstrá-las. O desejo de mudar seu jeito de ser e pensar o motivou a deixar a prefeitura de Ōita:

Não foi a ambição que me moveu. Senti inferioridade, uma certa frustração

O universo de Shingeki no Kyojin tem inspiração na arquitetura da cidade de Nördlingen (Bavária, Alemanha), enquanto sua inspiração psicológica vem da cidade rural de Hita (prefeitura de Ōita). Por ser um lugar montanhoso, Hita passa a impressão de ser um lugar isolado do resto da sociedade. A cidade é cercada por montanhas altas e imponentes, e, devido a isso, Isayama cresceu imaginando se haveria monstros além daqueles “muros”.

Apesar da frustração e sentimentos de impotência que motivaram o mangaká a deixar a sua cidade natal, isso foi superado: Hajime Isayama compareceu, pessoalmente, em numerosos eventos de fãs em Hita e hoje em dia Isayama-sensei sente que Hita parece ser um local ao qual ele pode ir a qualquer hora!

Falando a respeito de suas influências, a sua primeira influência conceitual para o mangá foi Muv-Luv Alternative — um jogo eletrônico sobre uma invasão alienígena que quase acabou com a humanidade — e também suas experiências ruins em Tóquio, com clientes bêbados e irritados em um cibercafé onde trabalhava de madrugada. Isayama mencionou que os Titãs são tipo pessoas bêbadas, apesar de ele sublinhar que as pessoas embriagadas da vida real são, definitivamente, menos sinistras. Ele pensou como era assustador estar na frente de alguém com quem era impossível se comunicar, e essa ideia incentivou a criação dos Titãs.

Para desenhar os Titãs, escolho expressões que me causam desconforto. A expressão dos Titãs não é adequada para todas as situações; por exemplo, desde quando o encontram até o momento em que o matam, eles não param de sorrir. Optei por fazer assim para produzir a sensação mais desagradável possível.

Uma história de sucesso

O mangá estreou em setembro de 2009 na revista Bessatsu Shōnen Magazine e teve uma uma recepção de sucesso, conseguindo vender quase 3,8 milhões de cópias até ao final de 2011, conforme registado pela Oricon. Em 2013, um pico de quase 16 milhões de cópias vendidas rendeu à Kōdansha seu primeiro aumento de lucro em 18 anos! E, em abril daquele mesmo, ano houve a estreia da primeira temporada do anime: dois meses depois, a editora japonesa imprimiu mais 8 milhões de cópias dos dez volumes compilados até então.

A franquia se expandiu para vários spin-offs, novels, videogames, live-actions, figures e, claro, uma adaptação de anime de sucesso, composta por 75 episódios e quatro compilações desde sua estreia. Em dezembro de 2019, o mangá tinha ultrapassado 100 milhões de cópias em circulação global, ficando no top 20 dos mais vendidos de todos os tempos. A estreia da última temporada gerou tanta ansiedade, que os servidores da Crunchyroll e da Funimation entraram em colapso devido à enorme demanda de acessos. O anime se tornou a série mais assistida nos Estados Unidos durante sua transmissão no início de 2021 de acordo com a Parrot Analytics.

A história também conseguiu se fazer presente em esferas diferenciadas: na política, o presidente da França Emmanuel Macron, por exemplo, fez referências à série num vídeo de TikTok falando sobre passe cultural e usando a expressão “Batalha de exploração”. No mundo dos esportes, a lutadora de UFC Roxanne Modafferi usou uma pose icônica em uma de suas pesagens. E nos últimos Jogos Olímpicos, a abertura Shinzō o Sasageyo! soou em uma competição de tiro com arco, entre outras.

Attack on Titan: The Final Season – Parte 2

Após um hiato de nove meses de produção, a saga se encaminha para sua conclusão final, e vamos retomar a história exatamente onde a deixamos: no capítulo 16 da temporada final — capítulo 75 da série em geral — com o Exército de Marley iniciando uma contraofensiva no distrito de Shiganshina.

As linhas entre amigo e inimigo tornam-se ainda mais confusas. A guerra por Paradis irrompe em Shiganshina e, conforme a batalha continua, as verdadeiras intenções dos mentores por trás da atual situação mundial tornam-se claras…

A produção continua nas mãos do estúdio MAPPA (Jujutsu Kaisen). A equipe principal será chefiada novamente pelo diretor Yūichirō Hayashi (Dorohedoro), o roteirista Hiroshi Seko (Shingeki no Kyojin, Vinland Saga), o designer de personagens Tomohiro Kishi (Dorohedoro), bem como os compositores Hiroyuki Sawano (Shingeki no Kyojin, 86 -Eighty Six-) e Kohta Yamamoto (86 -Eighty Six-).

A série contará com o retorno do elenco principal de vozes japonesas:

  • Yūki Kaji (Eren Yeager);
  • Yui Ishikawa (Mikasa Ackerman);
  • Marina Inoue (Armin Arlert);
  • Hiroshi Kamiya (Levi Ackerman);
  • Hiro Shimono (Conny Springer);
  • Romi Park (Hange Zoë);
  • Ayane Sakura (Gabi Braun);
  • Yoshimasa Hosoya (Reiner Braun);
  • Manami Numakura (Pieck Finger);
  • Natsuki Hanae (Falco Grice);
  • Toshiki Masuda (Porco Galliard);
  • Takehito Koyasu (Zeke Yeager).

A seguir, o teaser e trailer que foram lançados respectivamente em 13 de outubro e 21 de dezembro de 2021:

Vamos recapitular: o último capítulo transmitido, “No Céu e na Terra”, encerrou-se com a invasão das tropas marleyanas a Paradis, justo quando Eren e seus seguidores, junto com as forças de Zeke, assumiram o controle da ilha. Mas os irmãos Yeager estão prontos para ativar o poder do Titã Fundador e tornar o plano de Zeke realidade: esterilizar todos os eldianos a fim de finalmente extinguir os Titãs para sempre.

O arco War of Paradis é o último do mangá e nos traz, dentre outras coisas, um novo confronto entre Eren e Reiner. Ver até onde irá esse plano, no qual está em jogo o destino de toda a linhagem eldiana, será o principal núcleo desta reta final, em que também teremos revelações sobre a origem do poder dos Titãs, as decisões de Mikasa e Armin e os verdadeiros objetivos de Eren — nos fazendo refletir sobre o que ocorre quando um enorme poder está em jogo!

A segunda parte de Attack on Titan: The Final Season estreou ontem, 9 de janeiro de 2022. A série contará com transmissão simultânea na Crunchyroll e Funimation na América Latina, portanto, os episódios estarão disponíveis em ambas as plataformas de streaming algumas horas depois de serem transmitidos na televisão japonesa. No total, a segunda parte será composta por 12 episódios (Lembrando que há um boato de que pode haver um filme para encerrar a história).

O fim de Shingeki no Kyojin (mangá)

A conclusão do mangá — publicada em 9 de abril de 2021, após 11 anos e meio de serialização — teve uma recepção mista: uma parte acolheu as decisões criativas de Isayama, enquanto outra até lançou uma petição no Change.org, pedindo-lhe para mudá-lo.

Em extensa entrevista à revista Bessatsu Shōnen Magazine, Isayama disse que escrever o mangá significou desafiar sua percepção de si mesmo, sua timidez social, as mudanças em sua vida pessoal e suas habilidades como artista. Ele falou a respeito do processo:

O primeiro rascunho do último capítulo que desenhei tinha a última página dividida em cerca de cinco painéis, mas tive a sensação de que não consegui fazer da forma certa. Naquela época, a última página era uma cena dos três (Eren, Mikasa e Armin) correndo em direção a uma colina. Depois de uma reunião com o editor responsável, Shintarō Kawakubo, e os demais, decidi mudar às pressas, e o resultado é a versão que saiu na edição de maio da Bessatsu Magazine.

Sobre a reação dos fãs, Isayama admite que em alguns pontos não foi claro o suficiente, especialmente na conversa de Armin e Eren, que deu a entender que Armin aprovava o genocídio cometido pelo seu amigo:

Tenho conferido as reações à história com todas as minhas forças. Minha opinião honesta é correta tanto quanto as dos outros. Acho que, da forma como foi desenhado, pode ser confundido como se Armin tivesse aprovando o massacre. Porque eu acho que a forma como desenhei foi imatura. Embora Armin não tenha aprovado as ações horríveis de Eren, ele se beneficiou pelo massacre independente das suas intenções.

Isayama também disse que teve dificuldades em desenvolver melhor os temas nesse trecho final da sua obra, afirmando que estava um pouco confiante demais que conseguiria agradar a todos:

A última parte da história me fez perceber que era um tema particularmente difícil para eu desenhar, e eu realmente lamento não ter conseguido me expressar corretamente no mangá. Depois de onze anos e meio de trabalho, quando terminei o último capítulo, realmente pensei que seria capaz de deixar todos felizes, mas acho que estava confiante demais. Me desculpem aqueles que ficaram decepcionados comigo, mas me apoiaram até o final.

No entanto, o mangaká afirma que foi uma experiência enriquecedora, principalmente pela quantidade de pessoas com quem conseguiu se conectar graças ao seu trabalho:

Através de Attack on Titan, consegui me conectar com mais pessoas do que jamais poderia imaginar. Fiquei muito feliz por poder passar um tempo com leitores que nunca teria conhecido se tivesse uma vida normal. Além disso, agora que a série acabou e eu estou livre, quero andar por uma cidade pequena com um copo de saquê na minha mão. Acho que é isso o que significa liberdade.

Quanto à adaptação para anime, o autor diz:

O anime pode ser descrito como “outro Attack on Titan” e muitas pessoas conheceram a história graças a essa versão. Foi interessante ver como o diretor e os dubladores tiraram os personagens das minhas mãos, no bom sentido, e os fizeram levar uma vida independente.

O departamento editorial da Bessatsu Shōnen Magazine também falou a respeito do final:

Não há nada mais valioso do que as pessoas poderem compartilhar emoções, que não podem ser expressas em palavras, graças a uma história. Ficamos felizes em nos sentir assim junto com nossos leitores e parceiros por meio do Attack on Titan. Embora a série tenha chegado ao fim, essas memórias sempre permanecerão quentes em nossos corações. Obrigado pela leitura.

O que podemos esperar?

No mangá, durante o clímax, vemos muitos painéis com centenas de personagens emoldurados, enormes vistas panorâmicas e várias batalhas acontecendo ao mesmo tempo: a quantidade de trabalho para o estúdio MAPPA é literalmente gigante. A primeira parte da temporada final recebeu opiniões mistas, com muitos setores criticando algumas deficiências na animação, publicações de screenshots mostrando “desenhos ruins” ou criticando a CGI nas batalhas.

Logo após a transmissão do capítulo 5 (64 de toda a série), Declaração de Guerra, seu diretor, Teruyuki Omine, teve que trancar suas contas nas redes sociais, devido à onda de mensagens de ódio que recebeu de “fãs” que não concordaram com a musicalização e o ritmo do episódio, o que rendeu uma resposta de outro membro da equipe do MAPPA na ocasião:

Você é livre para ter sua própria opinião sobre a produção. No entanto, provocar e assediar constantemente os funcionários é inaceitável. Apreciamos que eles tiveram a cortesia ou pelo menos respeito pelo esforço sobre-humano que está sendo feito para o anime. Sejamos maduros.

Algumas coisas durante esse processo de crítica foram esquecidas, os aspectos fundamentais sobre as condições de produção nesta temporada: adaptação às condições da pandemia e o ritmo forçado dado o fluxo constante de projetos que são aceitos pelo MAPPA. A segunda parte da temporada final também não teve muito tempo para acontecer, apesar do hiato de nove meses em sua transmissão. A aparência física do diretor Yūichirō Hayashi durante o evento MAPPA STAGE 2021 causou grande preocupação entre os fãs, e nosso desejo é de que nessa temporada os críticos sejam menos tóxicos com relação as suas expectativas.

A realidade é que a reta final que nos espera certamente não deixará ninguém indiferente, pois a conclusão de uma história que sofreu mudanças — de um tema de sobrevivência para uma guerra racial — e que coloca seus personagens em xeque traz o fim de uma emocionante jornada de surpresas, revelações e sacrifícios. O ponto final desta história tão bem-sucedida quanto memorável foi escrita e será perpetuada na memória de todos que acompanharam essa trajetória, afinal, boas histórias são atemporais.