Voltaremos a polemizar na segunda matéria da ICECREAM e, dessa vez, vamos ainda mais fundo nas almas de vocês, eu diria até na alma de toda a sociedade. Hoje falaremos de preconceito e homossexualidade, porém vamos além do velho papinho de LGBT ou simplesmente Yaoi/Yuri.

A proposta, hoje e sempre, é tentar entender o porquê de algo ser o que é e de desvendar o que algo é, e não aparenta ser… Ficaram confusos? Pegue um pouco de sorvete.

É de conhecimento de todos a escassez de material Yaoi proveniente das editoras que publicam no Brasil, e muitos associam isso ao preconceito presente na sociedade brasileira. Será que se trata de algo assim tão simplório? Vamos tentar ver além dos meros sapiens sapiens e buscar razões na sociedade que cria os tão amados e odiados mangás eróticos: o Japão.

Nas ruas japonesas é comum ver pessoas lendo qualquer tipo de mangás, desde shoujos inocentes até futanaris e lolicons, especialmente nos metrôs e trens. Infelizmente não é o mesmo quando a sexualidade e a liberdade de se expressar em público é trazida para fora das páginas coloridas com nanquim.

Isso por motivos óbvios: qualquer demonstração de afeto por meio de contato físico no Japão pode ser encarada como embaraçosa ou até mesmo desrespeitosa, algo que ganha o benefício da exceção quando acontece em ambientes adolescentes, graças à americanização da juventude japonesa, apresentada na matéria anterior sobre Shingeki no Kyojin, e o sushi sendo trocado pelo fast food.

Colocando uma colher de polêmica no sorvete dos japoneses, farei uso de algo extremamente tradicional do país: o teatro Kabuki.

No século XVII o Japão era conhecido pelos típicos centros teatrais Kabuki, onde mulheres jovens cantavam e dançavam para deleite do público. Com o passar do tempo as apresentações viraram uma verdadeira febre na Terra do Sol Nascente e logo as moças passaram a oferecer mais do que uma simples apresentação aos clientes (acho que não preciso explicar melhor que tipo de serviços eram prestados, certo?)

Junto com essa mudança radical nos centros teatrais, foram introduzidos atores, sim, homens que prestavam serviços idênticos aos de suas colegas de profissão, em sua maioria para outros homens que assistiam as apresentações e gostavam de um certo ator. 

E isso foi o fim do teatro Kabuki… Ora, não seja baka, é claro que não! A prostituição foi extinta quando as autoridades japonesas passaram a fiscalizar esses estabelecimentos e, para que a mistura de sexos fosse mantida como tradição das apresentações, diversos atores passaram a fazer papéis femininos.

Tudo fora aceito de maneira maravilhosa, era algo que expunha ao máximo o talento do ator que se apresentava diante de todos com tamanha maestria e estendeu-se por um bom tempo até que, por razões desconhecidas (graças à paixão dos asiáticos de queimar documentos históricos), o teatro tornou-se exclusivamente composto de artistas homens.

Hoje existem casas que aceitam atrizes em teatros Kabuki, as famosas Gueixas, por exemplo, e a prática teoricamente entrou no eixo da lei. Uma bela aula de História, e percebam que a prostituição homossexual não só foi aceita mas também apreciada pelo povo japonês.

Tratando-se da homossexualidade no Japão como um todo, a visão do povo por lá é tão liberal com relação ao assunto que deixa qualquer brasileiro envergonhado. Sim, a maioria deve pensar que seja o contrário, mas o povo japonês aceita muito bem a homossexualidade!

Reparem que as situações citadas no início da matéria são referentes à atos em público, não sobre a sexualidade dos casais, e a aceitação e naturalidade com que as pessoas lidam com os homossexuais se estende até mesmo às crianças e idosos, os conservadores e rabungentos idosos japoneses (isso partindo da perspectiva de um jovem ocidental).

Finalmente voltando ao nosso país, todos os pontos que se diferenciam da nossa nação nos levam a pensar se a disseminação do gênero Yaoi está condenada a seguir acorrentada aos tabus culturais do país sobre o homossexualidade em geral.

É claro que a maior parte do público brasileiro que aprecia mangás do tipo é feminino, mas, seguindo a linha de raciocínio político-religiosa que reina por aqui, torna-se perfeitamente plausível afirmar que a causa dessa afunilação dos fãs seja um reflexo direto das mulheres brasileiras que aceitam a homossexualidade com muito mais facilidade do que os homens, confirmando ainda a repugnância que os brasileiros sentem com relação ao tema.

Mais um grito foi dado; ouvido ou não, é tão evidente no país que certamente criará um eco doloroso. Quero saber o que você acha, leitor. Quero fazer sua alma ser ouvida. 

Grite.